O que é Transtorno Opositivo Desafiante? E quais são os critérios diagnósticos de acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição ou DSM-5?
(Texto extraído do Manual de Diagnóstico e
Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição ou DSM-5, acrescento apenas uma pequena introdução
e algumas considerações ao final)
Rosemeire Rocha Fukue
Psicóloga clínica e Neuropsicóloga
O Transtorno de Oposição Desafiante é um transtorno
disruptivo, caracterizado por um padrão global de desobediência, desafio e
comportamento hostil. Os indivíduos com este transtorno discutem excessivamente com adultos, não aceitam responsabilidade por sua má conduta, incomodam deliberadamente os
demais, possuem dificuldade em aceitar regras e perdem facilmente o controle se
as coisas não seguem a forma que eles desejam.
De
acordo com o DSM 5
A. Um padrão de humor raivoso/irritável, de
comportamento questionador/desafiante ou índole vingativa com duração de pelo menos seis meses, como
evidenciado por pelo menos quatro sintomas de qualquer das categorias seguintes
e exibido na interação com pelo menos um indivíduo que não seja um irmão.
Humor
Raivoso/Irritável
1. Com
frequência perde a calma;
2. Com
frequência é sensível ou facilmente incomodado;
3. Com
frequência é raivoso e ressentido.
Comportamento
Questionador/Desafiante
4.
Frequentemente questiona figuras de autoridade ou, no caso de crianças e
adolescentes, adultos;
5.
Frequentemente desafia acintosamente ou se recusa a obedecer a regras ou
pedidos de figuras de autoridade;
6.
Frequentemente incomoda deliberadamente outras pessoas;
7.
Frequentemente culpa outros por seus erros ou mau comportamento.
Índole Vingativa
8. Foi
malvado ou vingativo pelo menos duas vezes nos últimos seis meses.
Nota:
A persistência
e a frequência desses comportamentos devem ser utilizadas para fazer a
distinção entre um comportamento dentro dos limites normais e um comportamento
sintomático. No caso de crianças com
idade abaixo de 5 anos, o
comportamento deve ocorrer na
maioria dos dias durante um período mínimo de seis meses, exceto se
explicitado de outro modo (Critério A8). No
caso de crianças com 5 anos ou mais, o comportamento deve ocorrer pelo menos
uma vez por semana durante no mínimo seis meses, exceto se explicitado de
outro modo (Critério A8). Embora tais critérios de frequência sirvam de
orientação quanto a um nível mínimo de frequência para definir os sintomas,
outros fatores também devem ser considerados, tais como se a frequência e a
intensidade dos comportamentos estão fora de uma faixa normativa para o nível
de desenvolvimento, o gênero e a cultura do indivíduo.
B. A
perturbação no comportamento está associada a sofrimento para o indivíduo ou
para os outros em seu contexto social imediato (p. ex., família, grupo de
pares, colegas de trabalho) ou causa impactos negativos no funcionamento
social, educacional, profissional ou outras áreas importantes da vida do indivíduo.
C. Os
comportamentos não ocorrem exclusivamente durante o curso de um transtorno
psicótico, por uso de substância, depressivo ou bipolar. Além disso, os
critérios para transtorno disruptivo da desregulação do humor não são
preenchidos.
Especificar
a gravidade atual:
Leve:
Os sintomas limitam-se a apenas um ambiente (p. ex., em casa, na escola, no
trabalho, com os colegas).
Moderada:
Alguns sintomas estão presentes em pelo menos dois ambientes.
Grave:
Alguns sintomas estão presentes em três ou mais ambientes.
Especificadores
Não é raro indivíduos com transtorno de oposição
desafiante apresentarem sintomas somente em casa e apenas com membros da
família. No entanto, a difusão dos sintomas é um indicador da gravidade do
transtorno.
Características
Diagnósticas
A característica essencial do transtorno de
oposição desafiante é um padrão freqüente e persistente de humor
raivoso/irritável, de comportamento questionador/desafiante ou de índole
vingativa (Critério A). Não é raro indivíduos com transtorno de oposição desafiante
apresentarem características comportamentais do transtorno na ausência de
problemas de humor negativo. Entretanto, as pessoas com o transtorno que
apresentam sintomas de humor raivoso/irritável costumam também demonstrar
características comportamentais. Os sintomas do transtorno de oposição
desafiante podem se limitar a apenas um ambiente, mais frequentemente em casa.
Os indivíduos que apresentam sintomas suficientes para atingir o limiar
diagnóstico, mesmo que isso ocorra somente em casa, podem ter prejuízos
significativos em seu funcionamento social. Todavia, nos casos mais graves, os
sintomas do transtorno estão presentes em múltiplos ambientes. Levando-se em
conta que a difusão dos sintomas é um indicador da gravidade do transtorno, é
extremamente importante avaliar o comportamento do indivíduo em vários
ambientes e relacionamentos. Como são comuns entre irmãos, esses comportamentos
devem ser observados nas interações com outras pessoas. Além disso,
considerando que, em geral, os sintomas do transtorno são mais evidentes nas
interações com adultos ou pares que o indivíduo conhece bem, eles podem não
ficar tão evidentes no exame clínico. Os sintomas do transtorno de oposição
desafiante podem ocorrer em alguma medida entre indivíduos sem esse transtorno.
Há várias considerações importantes para determinar se os comportamentos são
sintomáticos do transtorno de oposição desafiante. Em primeiro lugar, o limiar
diagnóstico de quatro sintomas ou mais durante os seis meses precedentes deve
ser atingido. Em segundo lugar, a persistência e a frequência dos sintomas
deverão exceder os níveis considerados normais para a idade, o gênero e a
cultura do indivíduo. Por exemplo, não é incomum que crianças pré-escolares
apresentem ataques de raiva semanalmente. Explosões de raiva para uma criança
pré-escolar seriam consideradas sintomas do transtorno de oposição desafiante
somente se tivessem ocorrido na maioria dos dias nos seis meses precedentes, se
tivessem ocorrido com pelo menos três outros sintomas do transtorno e se as
explosões de raiva tivessem contribuído para o prejuízo significativo associado
ao transtorno (p. ex., levassem à destruição de propriedade durante as
explosões, resultassem na expulsão da criança da pré-escola). Com frequência,
os sintomas do transtorno fazem parte de um padrão de interações problemáticas
com outras pessoas. Além disso, geralmente indivíduos com esse transtorno não
se consideram raivosos, opositores ou desafiadores. Em vez disso, costumam
justificar seu comportamento como uma resposta a exigências ou circunstâncias
despropositadas. Consequentemente, pode ser difícil estabelecer a contribuição
relativa do indivíduo com o transtorno para as interações problemáticas que ele
vivência. Por exemplo, crianças com transtorno de oposição desafiante podem ter
vivenciado uma história de cuidados parentais hostis, e, com frequência, é
impossível determinar se seu comportamento fez os pais agirem de uma maneira
mais hostil em relação a elas, se a hostilidade dos pais levou ao comportamento
problemático da criança ou se houve uma combinação de ambas as situações. A
possibilidade de o clínico separar as contribuições relativas dos potenciais
fatores causais não deve influenciar o estabelecimento ou não do diagnóstico.
Nas situações em que a criança estiver vivendo em condições particularmente
precárias, em que poderão ocorrer negligência ou maus-tratos (p. ex., em
instituições), a atenção clínica para diminuir a influência do ambiente pode
ser útil.
Características
Associadas que Apoiam o Diagnóstico
Em crianças e adolescentes, o transtorno de
oposição desafiante é mais prevalente em famílias nas quais o cuidado da
criança é perturbado por uma sucessão de cuidadores diferentes ou em famílias
nas quais são comuns práticas agressivas, inconsistentes ou negligentes de
criação dos filhos. Duas das condições que mais costumam ocorrer de forma
concomitante com o transtorno de oposição desafiante são o transtorno de
déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e o transtorno da conduta (ver a seção
"Comorbidade" para esse transtorno). O transtorno de oposição
desafiante foi associado a um risco aumentado para tentativas de suicídio,
mesmo depois do controle para transtornos comórbidos.
Prevalência
A prevalência do transtorno de oposição desafiante
varia de 1 a 11%, com uma prevalência média estimada de 3,3%. A taxa da
transtorno pode variar de acordo com a idade e o gênero da criança.
Aparentemente, é mais prevalente em indivíduos do sexo masculino do que em
indivíduos do sexo feminino (1,4:1) antes da adolescência. Essa predominância
do sexo masculino não é encontrada de forma consistente em amostras de
adolescentes ou de adultos.
Desenvolvimento
e Curso
Geralmente, os primeiros sintomas do transtorno de
oposição desafiante surgem durante os anos de pré-escola e, raramente, mais
tarde, após o início da adolescência. Com frequência, o transtorno de oposição
desafiante precede o desenvolvimento do transtorno da conduta, sobretudo em
indivíduos com transtorno da conduta com início na infância. No entanto, muitas
crianças e adolescentes com transtorno de oposição desafiante não desenvolvem
subsequentemente o transtorno da conduta. O transtorno de oposição desafiante
também confere risco para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade e
transtorno depressivo maior, mesmo na ausência do transtorno da conduta. Os
sintomas desafiantes, questionadores e vingativos respondem pela maior parte do
risco para transtorno da conduta, enquanto os sintomas de humor
raivoso/irritável respondem pela maior parte do risco para transtornos
emocionais. As manifestações do transtorno parecem ser consistentes ao longo do
desenvolvimento. Crianças e adolescentes com transtorno de oposição desafiante
estão sob risco aumentado para uma série de problemas de adaptação na idade
adulta, incluindo comportamento antissocial, problemas de controle de impulsos,
abuso de substâncias, ansiedade e depressão. A frequência de muitos dos
comportamentos associados ao transtorno de oposição desafiante aumenta no
período pré-escolar e na adolescência. Portanto, durante esses períodos de
desenvolvimento é especialmente importante que a frequência e a intensidade
desses comportamentos sejam avaliadas em relação aos níveis considerados normais
antes de decidir que se trata de sintomas do transtorno de oposição desafiante.
Fatores
de Risco e Prognóstico Temperamentais.
Fatores temperamentais relacionados a problemas de
regulação emocional (p. ex., níveis elevados de reatividade emocional, baixa tolerância
a frustrações) são preditivos do transtorno.
Ambientais
Práticas agressivas, inconsistentes ou negligentes
de criação dos filhos são comuns em famílias de crianças e adolescentes com
transtorno de oposição desafiante, sendo que essas práticas parentais
desempenham papel importante em muitas teorias causais do transtorno.
Genéticos
e fisiológicos.
Uma série de marcadores neurobiológicos (p. ex.,
menor reatividade da frequência cardíaca e da condutância da pele; reatividade
do cortisol basal reduzida; anormalidades no córtex pré-frontal e na amígdala)
foi associada ao transtorno de oposição desafiante. Entretanto, a vasta maioria
dos estudos não separou crianças com o transtorno de oposição desafiante daquelas
com transtorno da conduta. Desse modo, não está claro se existem marcadores
específicos para o transtorno de oposição desafiante.
Questões
Diagnósticas Relativas à Cultura
A prevalência desse transtorno em crianças e
adolescentes é relativamente consistente entre países que diferem em raça e
etnia.
Questões
Funcionais do Transtorno de Oposição Desafiante
Quando o transtorno de oposição desafiante é
persistente ao longo do desenvolvimento, os indivíduos com o transtorno
vivenciam conflitos freqüentes com pais, professores, supervisores, pares e
parceiros românticos. Com frequência, tais problemas resultam em prejuízos
significativos no ajustamento emocional, social, acadêmico e profissional do
indivíduo.
Diagnóstico
Diferencial Transtorno da conduta.
Tanto o transtorno da conduta quanto o transtorno
de oposição desafiante estão relacionados a problemas de conduta que colocam o
indivíduo em conflito com adultos e outras figuras de autoridade (p. ex.,
professores, supervisores de trabalho). Geralmente, os comportamentos do
transtorno de oposição desafiante são de natureza menos grave do que aqueles
relacionados ao transtorno da conduta e não
incluem agressão a pessoas ou animais,
destruição de propriedade ou um padrão
de roubo ou de falsidade. Além disso, o transtorno de oposição desafiante inclui problemas de desregulação emocional
(i.e., humor raivoso e irritável) que não estão inclusos na definição de
transtorno da conduta. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. Com
frequência, o TDAH é comórbido com o transtorno de oposição desafiante. Para
fazer um diagnóstico adicional de transtorno de oposição desafiante é
importante determinar que a falha do indivíduo em obedecer às solicitações de
outros não ocorre somente em situações que demandam esforço e atenção
sustentados ou que exigem que o indivíduo permaneça quieto.
Transtornos
depressivo e bipolar
Com frequência, os transtornos depressivo e bipolar
envolvem irritabilidade e afeto negativo. Como resultado, um diagnóstico de
transtorno de oposição desafiante não deverá ser feito se os sintomas ocorrerem
exclusivamente durante o curso de um transtorno do humor. Transtorno disruptivo
da desregulação do humor. O transtorno de oposição desafiante compartilha com o
transtorno disruptivo da desregulação do humor os sintomas de humor negativo
crônico e explosões de raiva. Entretanto, a gravidade, a frequência e a
cronicidade das explosões de raiva são mais graves em indivíduos com transtorno
disruptivo da desregulação do humor do que naqueles com transtorno de oposição
desafiante. Consequentemente, apenas uma minoria de crianças e de adolescentes
cujos sintomas preenchem os critérios de transtorno de oposição desafiante
seria também diagnosticada com o transtorno disruptivo da desregulação do
humor. Nos casos em que a perturbação do humor for suficientemente grave para
preencher os critérios de transtorno disruptivo da desregulação do humor, um
diagnóstico de transtorno de oposição desafiante não é feito, mesmo que todos
os critérios para essa condição tenham sido preenchidos. Transtorno explosivo
intermitente. O transtorno explosivo intermitente também envolve altas taxas de
raiva. No entanto, indivíduos com esse transtorno apresentam agressão grave
dirigida a outros, o que não faz parte da definição de transtorno de oposição
desafiante. Deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento
intelectual). Em indivíduos com deficiência intelectual, um diagnóstico de
transtorno de oposição desafiante é feito somente se o comportamento opositor
for acentuadamente maior do que aquele que em geral se observa entre indivíduos
com idade mental comparável e com gravidade comparável de deficiência
intelectual. Transtorno da linguagem. O transtorno de oposição desafiante deve
também ser diferenciado da incapacidade para seguir orientações resultante de
uma alteração na compreensão da linguagem (p. ex., perda auditiva). Transtorno
de ansiedade social (fobia social). O transtorno de oposição desafiante também
deve ser diferenciado da recusa decorrente do medo de uma avaliação negativa
associada com o transtorno de ansiedade social.
Comorbidade
As taxas do transtorno de oposição desafiante são
muito mais altas em amostras de crianças, adolescentes e adultos com TDAH,
sendo que isso pode ser o resultado de fatores de risco temperamentais
compartilhados. Além disso, o transtorno de oposição desafiante com frequência
precede o transtorno da conduta, embora isso pareça ser mais comum em crianças
com o subtipo com início na infância. Indivíduos com transtorno de oposição
desafiante também têm risco aumentado de transtornos de ansiedade e transtorno
depressivo maior, e isso parece ser, em grande medida, atribuível à presença de
sintomas de humor raivoso/irritável. Adolescentes e adultos com o transtorno de
oposição desafiante também apresentam taxas mais altas de transtornos por uso
de substâncias, embora não esteja claro se essa associação é independente da
comorbidade com transtorno da conduta.
Considerações
Considerações
Nós psicólogos, através do olhar clínico e com conhecimento destes critérios vamos levantar a hipótese
diagnóstica e para esta ser confirmada precisamos encaminhar ao médico especializado (psiquiatra infantil). Tendo a confimação do diagnóstico é indicado estabelecer uma parceria no tratamento, entre o psicólogo, médico e demais profissionais envolvidos, além claro da família, escola e o próprio paciente. Essa parceria é essencial para melhores resultados no tratamento, pois a mediação quando indicada pelo médico irá melhorar os sintomas, ela por si só não resolverá o problema.

Comentários
Postar um comentário